Sónar and Bowie Is – the perfect Christmas gift

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Should you buy these days a ticket for the upcoming Sónar festival in June you will receive and entrance for the “Bowie Is” exhibition in Barcelona.

Sónar is undoubtedly one of the best electronic music festivals in the world and a good reason to take to Barcelona in mid-June. Tickets for the coming 2017 edition are already on sale and come with an added bonus for a limited period: a full Sónar ticket and a free entrance to the Exhibition “Bowie Is” starting in Barcelon on May 25. Tickets are already available at https://sonar.es/en/2017/tickets. This association between this festival and this exhibition makes perfect sense, considering the pioneering role of David Bowie in music and the arts and the equally pioneering role of Sónar as one of leading events of advanced music and arts. Like Sónar, “Bowie Is” offers also a major sensorial experience, a true journey through Bowie sound and imagens. Justice, Moderat, Nicolas Jaar and De La Soul are among the 22 artists already confirmed for the Sónar 2017 edition. Considering the importance of Bowie for modern music and his pioneering role in electronic and avant-garde music, from “Low” and “Heroes” to his final work “Blackstar”, events around Bowie will probably sprout in and around the Barcelona Design Museum, located near L’Auditori, where some Sónar events usually take place (e.g. the concert by Riuchy Sakamonto and Alva Noto at this audiorium during Sónar 2006) and in and around Sónar Day and Sónar Night. Please refer to this post as we will bring you updates on this perfect combination between Bowie and Sónar as we receive them.

Carlos Tomé Sousa  

 

My life in the bush of sounds

Brian Eno and David Byrne created some 35 years ago the best record in the history of modern music.

“My Life in the bush of ghosts” tells the story of a boy entering a forest inhabited by ghosts and spirits written Nigerian author Amos Tutuola. Published in 1954, this very same book was the source of inspiration for an eponymous record by Brian Eno and David Byrne. This record follows “Fourth World, Vol. 1: Possible Musics”, an album Brian Eno recorded with Jon Hassel. By combining the extra-terrestrial trumpet of Hassel with the soundscapes of Brian Eno these two musicians opened the door to what could be the music of a fourth world, one as mysterious as the one we know as third world. The whole record invites us on a journey through a world unknown flying over green landscapes, deserts, crossing small villages and bathing in soothing lakes. It was released in 1980 and is considered by many as one the best by Brian Eno, the avant-garde master of ambient music. Vol. 2 was never released but one year after Brian Eno launched what could be its rightful successor, a record of possible musics for the world we think we know but which still holds numerous mysteries, hidden in bushes and forests we do not dare to enter for fear of succumbing to its enchantment. But come 1981 two men led us on a voyage through these enchanted bushes with the release of “My Life in the Bush of Ghosts”, the most beautiful, disturbing, complex and intense album of all times. The combination of the mastery of Brian Eno in designing soundscapes with David Byrne’s sense of rhythm, assisted by the natural curiosity of both musicians for world sounds and rhythm and the mastery of the techniques of cut, paste, mix and match of sounds and samples delivered a record that results in the perfect soundtrack for the life in hectic cities, in faraway lands or in the heart of lively jungles. In summary the perfect soundtrack for the global village.

Carlos Tomé Sousa

 

O pequeno gigante de mármore

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António Sérgio foi o encarregado de educação de uma imensa minoria de gente que, graças a ele, tem o melhor gosto musical do mundo.

Estão 22 graus ainda e as escadarias de mármore da igreja vão libertando devagar o calor acumulado durante o dia de Sol intenso. Estamos em pleno Verão alentejano, em plenas férias e a noite convida a ficar ali deitado sobre a pedra quente a olhar as estrelas que lá em cima desenham constelações. Do gravador estéreo de cassetes sintonizado numa estação de rádio sai uma canção poderosíssima que se espalha pelo ar. “Love my way” de Psychedelic Furs, anuncia uma voz grave e forte. Nem tive tempo de carregar no botão de gravar. Fiquei ali minutos a digerir aquilo, era muita informação, era muito bom. Não tinha onde escrever, mas também não era preciso. O nome e a banda estavam registados graças a ele. Nessa mesma escadaria, à mesma hora tardia, no largo onde estacionava uma vez por mês a carrinha dos livros da Gulbenkian descobrira meses antes “The Book I Read” dos Talking Heads. “I’m embarassed to admit it hit the soft spot in my heart”, dizia a canção. ‘Na na na na na’, ia eu cantando pelas ruas. Aquilo era mesmo bonito! António Sérgio era o nome desse homem que há dois anos andava a mexer com as minhas emoções a formar os meus gostos, “hitting the soft spot in my heart”. Por sua causa fui a correr comprar o “Heaven up Here” dos Echo and the Bunnymen”, aguardei impaciente a saída de “Juju” de Siouxsie and the Banshees”. Graças a ele comprei em 1980 numa loja para os lados da Praça da República em Coimbra “The Rise and Fall of Ziggy Stardust and the Spiders from Mars” de David Bowie, esse Deus supremo que me marcou a vida e os gostos e tudo. No dia em que me safei da tropa por excedente de pessoal, António Sérgio deve ter sabido e passou “Troops of tomorrow” dos Exploited. O homem parece que adivinhava os meus estados de alma e as suas músicas andavam sempre comigo no Sony walkman recentemente inventado. Estudava na altura em Coimbra e atravessava meio país desde o sul profundo com a sua voz gravada a anunciar canções que me marcavam os dias e as noites. O homem era de uma sensibilidade incrível e, sempre que viajava, lá ia para as lojas de discos com uma lista de compras que ele me ajudava a preparar. Desde os 16 anos e a cada ano que passava, a cada seis meses aparecia na loja Saturn de Colónia ou no MusicLand de Bona com mais um pedido. “’God’ dos Rip Rig and Panic? Gostas disto?”, perguntava-me o gajo do Saturn, surpreendido, enquanto procurava o disco na secção dos discos mais obscuros”.  “‘Westworld’ dos Theatre of Hate? Nem sei o que é mas acho que tenho ali. Onde é que raio vais descobrir estas bandas”, perguntava-me Günther, o freak do MusicLand. E eu lá lhe explicava que havia no meu país um locutor de rádio que passava estas músicas e que havia uma imensa minoria de gente com gostos semelhantes graças a ele. E voltava a Portugal com um molho de discos tudo causa dele. Esse mesmo homem que, em 1980 e em 1981, me deu a conhecer dois discos que mudaram a vida: “Remain in Light” dos Talking Heads e “My Life in the Bush of Ghosts” de Brian Eno e David Byrne. Lá estava ele a brincar com os meus sentimentos. Aquilo era eu em dois discos. O homem sabia ler-me a alma, não havia outra explicação. A cada emissão a minha lista de álbuns ia crescendo, Simple Minds, Shriekback, The The, Young Marble Giants, Comsalt Angels, Romeo Void, Triffids, Gary Numan, Cabaret Voltaire, This Mortal Coil, tudo com o selo António Sérgio, o homem que um dia quase me fez desmaiar quando passou “Song to the Siren” pelos This Mortal Coil. Aquilo era lindo e grandioso. Um dia conheci-o num bar chamado Ritz Club em Lisboa. Falámos já não sei de quê, de música certamente. Acho que nem me apresentei. Tinha quase a certeza que ele já me conhecia há muito. Só podia. E eis que há sete anos nos deixou de repente. O seu corpo jazia ali naquela capela da Basílica da Estrela e no ar ouviam-se temas que passara em tantos programas desde o Rotação ao Rolls Rock, Som da Frente, Grande Delta, Hora do Lobo, Viriato 21. A sensação foi indescritível. Uma sensação de arrepio correu-me a espinha, algo avassalador. E com o mais profundo sentimento de gratidão fechei os olhos e fiz, e repito, uma grande e devida vénia a esse pequeno gigante de mármore.

Carlos Tomé Sousa   

Moby sings the bitter truth

More than 25 years after his first appearances as musician, DJ and remixer and later as world acclaimed artist, Moby returns this year with another project, ‘Moby & the Void Pacific Choir’ where he tries once again to make sense of this obsessed world.

“These systems are falling” is Moby’s new album and marks his return in 2016. Fast, loud and epic, the sound in the new record brings us back to the wild energy of Moby’s early rave albums that secured his reputation as one the best musicians and producers in the dance scene. In the early nineties he combined his work as musician with that of DJ having remixed songs from bands and artists such as B 52’s, John Lydon, Bowie, Eno or Blur. Years passed and in 1999 he would become one of the most popular artists on the planet thanks to the album “Play” and mellow melodies like “Porcelain”, “Why does my heart feel so bad” or “Natural Blues”. His planetary success made him a household name and expanded his reputation as a musician. Now, more than 25 years after his first appearances as musician, DJ and remixer, the man everybody would love to invite for a drink, instead of inviting us for tea, bringing out his best tea set, prefers to break the china through sound, hitting us hard with powerful sounds and poignant messages. “These systems are falling” comes with a handful of videos that are there to help convey his message, particularly “Are you lost in the world like me” where he draws our attention to this phone-obsessed world. This record follows the release of his book “Porcelain: a memoir” released this Spring and where he tells of his life in New York City, from “the broken and dirty city to the bizarre and stratospherically expensive city it has become”. Moby, the nicest guy around, comes back in force in 2016. He is someone like us, someone we clearly identify with. “I’m not a cool narrator or a disaffected anti-hero” he wrote on his book. “I’m just a clueless and panicked human being trying to make sense of the strange world I find myself”, adding that “I tried to be as honest as I could”. The nice thing about Moby is that we believe every word he says.

Carlos Tomé Sousa  

E conteúdo que é bom, nada!

 

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O País fervilha de eventos. Festivais, inaugurações, desfiles, lançamentos, está tudo registado online, instagramado, pixelizado. Uma bebedeira visual colectiva. E no meio de tanta pressa ninguém tem dois minutos nem para contar um conto nem para acrescentar um ponto. Toma lá doze mil pixéis, e pronto.

São duas da tarde e na varanda do museu milhares de pessoas acotovelam-se para encontrar o melhor ângulo para a foto com o rio ao fundo. “Eu estive lá”, lê-se no hashtag escrito no Instagram e partilhado no Twitter, no Pinterest, no Google+ e no Facebook. Esteve você e dezenas de milhares de pessoas. São muitos os ângulos mas o ângulo é sempre o mesmo. Uma estrutura a lembrar a nave espacial Enterprise e milhares de seres na ponte em êxtase intergaláctico. Um ângulo fácil, rápido, como se quer, que não há tempo a perder. Lá dentro o acervo promete, diz-se que é um dos museus mais interessantes da capital. Procuramos fotos do mesmo, mas nada, zero. Estava muito cheio, nem entrámos, não faz mal, lemos depois no jornal.

Já passa das 11 da noite e um cantor com um ar estranho de androide paranóico, serve de pano de fundo para uma selfie com três meninas louras com chapéu de palha de uma marca de bebidas. O espaço está apinhado, vieram todos para ver a banda sensação da intelligentsia musical. 15 minutos depois, mais uma foto das três meninas e um DJ louro ao fundo. Toca às vezes na maior discoteca da cidade e o set no festival promete. Prometeu e cumpriu que aquilo estava cheio de gente gira, olha só as fotos que coloquei no Instagram. Ao fundo o cantor androide continua em palco. “No surprises”, canta com voz dolente. Querido, mas um bocadinho deprimente. No surprises, quando há tanta coisa gira para fotografar.

O evento já vai no terceiro desfile e ainda bem que ofereceram aqueles powerbanks que o pessoal estava a ficar sem bateria. De um lado da barricada dezenas de jovens jornalistas e bloggers fotografam incessantemente vestidos, sapatos e TV personalities. Têm instruções muito precisas. Há que alimentar a máquina online da revista, do jornal, do site. Estes novos repórteres já não procuram histórias. Foram mobilizados, há que dar o litro e durante três dias o que conta é o digital. O pixel deu lugar ao caracter, há que dar o que a gente quer. Os tecidos eram veludo, cetim ou organza? Não sei, nem reparámos, não perguntámos, esqueça. Temos que ir a correr instagramar os bastidores, estamos com pressa.

Carlos Tomé Sousa