O tempo tem o tempo que o tempo tem

O tempo nada tem que ver com isto tudo mas tem tudo a ver com as festas do Lux que recuperam e misturam o tempo que é de todos ao mesmo tempo.

Something happened on the week he died e a primeira palavra que vem à cabeça é gratidão. Uma semana depois da morte desse personagem maior que é David Bowie, Manuel Reis, uma figura ímpar na noite de Lisboa e que tantas saudades deixa congregava todos para uma festa de homenagem ao ídolo maior da maioria dos seus clientes do Lux e do Frágil. Um pouco por todos os andares do Lux ouvia-se Bowie, cantava-se Bowie, dançava-se Bowie numa celebração emocionada. “Isto somos nós”, dizia-me Rita ao ouvido por entre o som de “Somebody up there likes me”. E éramos, somos. Aqui na terra celebrava-se o homem e a obra graças à generosidade ímpar de um homem que abrira as suas portas e o seu bar para aquela quer terá sido a melhor festa de homenagem a Bowie. Agradeci-lhe emocionado. “Isto é para vocês”, respondeu-me. Era assim, fazia coisas bem pensadas a pensar em nós. A produção foi exemplar, dos fatos às pinturas dos funcionários, passando pelos vídeos e sets dos muitos DJs que responderam à chamada.

Estava inaugurada assim mais uma série de festas de Domingo com o simpático horário das 18 à 1 da manhã.  Meses depois seria a vez de mais uma festa, desta vez sob o signo do Mecenato para angariar fundos para a compra do quadro “A Adoração dos Magos” de Domingos Sequeira para o Museu Nacional de Arte Antiga e uma vez mais foram muitos os que acorreram para mais uma festa de produção exímia, a que se seguiria uma outra para celebrar a vida e obra de Grace Jones, esse felino da pop, da moda, da imagem.

Dois meses depois da morte de Manuel Reis, o seu legado continua no Lux e eis que volta mais uma festa de Domingo desta fez sob o lema de “Take me to the river”, tema incontornável do cancioneiro americano composto por Al Green e que os Talking Heads interpretaram magistralmente. “Existe o rio, as águas que passam mansas porque aqui o leito é profundo. Existem as paredes firmes do edifício que tapam os teus furacões, que escondem pessoas que se perdem e que não querem ser encontradas, que condensam o familiar suor de desconhecidos.Existem as portas e as janelas que numa tarde se abrem para a claridade branca.” Reza assim o texto desta festa que tal como as anteriores promote revisitar o tempo sem esquecer este tempo, uma festa que pelo horário, pela selecção musical promote ser mais um encontro de gerações, de sons e de visões partilhadas. Como dizia há pouco um amigo e assíduo frequentador do Lux, “vamos ver gente da nossa”.

Carlos Tomé Sousa

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