Lisboa, terra de ninguém

Primeiro, e não necessariamente por esta ordem, vieram os galegos e depois os transmontanos e minhotos e carvoarias e mercearias e os alentejanos e algarvios, fábricas de cortiça e siderurgias, ribatejanos e beirões, docas, e já dantes aqui havia navios e porões cheios de gente que aqui chegada partiu para as índias e para as américas e voltou sempre das especiarias e do bacalhau para as mulheres quase viúvas em casas estreitas num pequeno bairro, num qualquer subúrbio, gente, muita gente aqui chegando de camioneta, uma mão atrás e outra à frente e um farol ao fundo do rio a guiar o caminho, sempre em frente e gente que se formou e aqui se instalou, políticos e administrativos, gente que se fixou e raramente abalou só nas férias e nos finados quando a terra requer presença, salvo os filhos que já não vão, foram aqui criados, a terra cada vez mais uma recordação, só dos pais que daí são, das serras e dos planaltos, das planícies e dos socalcos, de onde vieram as comidas e vêm cada vez menos saberes, que a cidade quer-se moderna, sempre em frente, apagando o rasto dos que primeiro vieram, travando percursos de vida em troca de novas gentes que reclamam para si a cidade, alheias a quem perde a cidade que um dia foi sua, que reclamaram para si desde tenra idade e que agora, cada vez mais movediça, é de quem lá vem, terra de todos sem ser de ninguém.

Carlos Tomé Sousa

Leave a Reply

Your email address will not be published.