O mar da vergonha

O Mediterrâneo é um cemitério de águas aparentemente tranquilas onde diariamente morrem os aflitos deste mundo. Sem meios, sem medo do medo, aventuram-se mar adentro, por esse mar morno, mais vale moribundo do que morto de medo, de fome na margem de partida. A meio do mar, uma alma caridosa há-de contrariar a sua sina, numa costa a norte alguém abrirá os braços. E enquanto o milagre não acontece, vagueiam no meio do mar, olhando para os céus, apelando aos deuses na esperança de que alguém se faça ao mar e venha em seu auxílio.

É neste cenário, num mar de corpos que se acumulam em frágeis embarcações, quase sem vida, que a Sea Eye opera, contrariando a indiferença generalizada, salvando quem pode. No início de Fevereiro, um dos barcos operados por esta instituição alemã foi baptizado com o nome de Alan Kurdi, em homenagem ao menino que deu à costa sem vida numa praia da Turquia e cuja foto correu e impressionou mundo. A cerimónia contou com a presença do pai do menino e que nessa terrível travessia perdeu toda a sua família. Mas a foto do menino e a reportagem deste acto simbólico já não vendem. Foram engolidas na voragem mediática por outras questões. Passado o choque inicial que motivou tantos cliques instantâneos, o mundo voltou à sua rotina. E passados cinco anos desde esta tragédia, o barco que leva agora o nome desse menino vagueia por estes dias pelo Mediterrâneo em busca de um porto que acolha 64 pessoas, que correm o risco de perecer no mar perante a indiferença generalizada. Neste mar imenso o Alan Kurdi navega desesperado mas determinado na sua honrosa missão. Em terra de cegos este navio é rei. E a sua triste sina, navegando sem rumo, sem ter quem abrace o destino de um punhado de pessoas, sem um pingo de solidariedade, deveria encher-nos de vergonha.

Carlos Tomé Sousa

Leave a Reply

Your email address will not be published.