O ano do aborrecimento

O regresso à normalidade está para breve. Para trás ficam tempos estranhos, uma vida lenta, dolente e o mundo inteiro doente, assustado e confinado.

No princípio era o verbo… brincar. O mundo entrava em confinamento e brincava-se com a ideia de estarmos todos fechados, mas felizmente ligados. Ocuparam-se varandas que até então pouco mais eram do que depósitos de plantas ressequidas e móveis desmontados. Montaram-se cadeiras e espreguiçadeiras e, de repente, passámos a comer e a ler na varanda e a dizer olá a vizinhos que nem sabíamos que existiam. O país escondido atrás de cortinados e persianas revelava-se, dava a cara, adquiria hábitos quase nórdicos, banhos de sol despudorados à varanda. Redistribuíram-se espaços, reafectaram-se divisões e montámos escritório na divisão que antes servia de despensa e onde dantes se acumulavam caixas, latas de feijão, camas desmontadas e um velho cadeirão. Passámos a viver todos ao monte, forçaram-se convivências, dez, vinte, trinta dias seguidos sogra, mulher, filhos, canário, periquito e o cão. Havemos de nos habituar, há-de passar, a experiência pode ser edificante, sairemos daqui mais gente, certamente.

A meio do ano era o verbo…cantar. Cantava-se à janela, ópera, o Grândola e tudo, o vizinho que tinha jeito no saxofone, o vizinho da Dona Rosa e o megafone. Cantaram-se parabéns a idosas emocionadas, o sole mio que estou aqui sozinho só com o sol por companhia, uma miúda com uma voz bonita e uma guitarra de nome Maria. Saía-se à varanda para respirar, uma nova conjugação do verbo viver, paredes meias com uma casa cheia, à janela, eu, tu mais ela e, lá em baixo, rua acima, motas sem fim e gente de caixa às costas, um enxame de novos desgraçados, rápido e esmerado serviço em tempo de pandemia ao serviço dos mais acagaçados, que lá fora o perigo espreita na rua, nos supermercados, eu é que sei, melhor recorrer ao take-away.

Ainda a procissão ia no adro e o verbo era… estar ligado. Zoom, teams, facetime, chat, uma chatice, a mãe, o patrão a vizinha e o amigo a entrarem pela sala e cozinha adentro, a câmara no ângulo certo para mostrar o que se quer, para não revelar tudo, só os livros, o resto arrumado, apinhado num canto mudo nas novas salas agora abertas ao mundo. E neste mundo ligado o melhor é andar penteado, minimamente vestido da cintura para cima. Tem graça, mas no fundo é uma desgraça. A decadência que é vaguear pela casa dias a fio de pijama e roupão em estado de dormência.

Depois veio o sol e o verbo era… esplanar. O país que vive para dentro, que não levanta a persiana de repente descobriu o prazer de apanhar ar. Não foi mérito seu, nunca foi, nunca foi dado a esplanadas, e não fora o turismo e os estrangeiros e agora a pandemia não se sentaria tão amiúde numa mesa virada para a rua, que está fresquinho, melhor levar um casaquinho. Mas o hábito fez o monge, o povo esqueceu o fresquinho e o casquinho e cometeu o pecado capital da exposição pública, expôs-se aos elementos, ao vento, aos olhares, o povo a medo  ficando despudorado. E as ruas ficaram de repente mais povoadas, por todo o lado a cada esquina esplanadas, amplas ou atravancadas nos passeios de qualquer rua, qualquer bairro.

Mas não há bela sem senão e eis que passado o verão o verbo voltou a ser… confinar. Arrumaram-se as mesas e as cadeiras como castigo e ficámos meses à espera que se abrisse um postigo para voltarmos a ter vida e bica e uma ilusão de normalidade, a bica bebida de fugida na esquina agora sem esplanada, em copo de plástico que é melhor do que nada. E passámos assim o Outono até ao Inverno com o Natal à porta e luzinhas para alegrar a rua que já quase não era rua, apenas um tapete de jogging generalizado, um corredor de supermercado, uma via sem sentido, destituída de funções e dos normais peões, sem bancos ocupados, sem os velhos, agora fechados, isolados, um ano que parecia ter vinte invernos.

E chegou o Natal e o verbo foi…reunir. Reuniram-se famílias e retirou-se a fava do bolo, que pode ter bicho. Encheram-se mesas de bolos e gente, menos gente certamente, mas para o novo bicho foi o suficiente. E o Natal tornou-se Paixão, a natividade gerou orfandade, milhares de doentes, defuntos e a Páscoa ainda tão longe, foram meses de calvário lento até ao renascimento com a crença no que há-de vir, que só pode ser melhor, que Janeiro e Fevereiro reservaram-nos o pior, ali fechados, deprimidos nesse inverno cruel. Fecha a porta e janela, cumprimenta o vizinho à cautela, um dia e mais um e mais outro, testou-se a paciência e a resistência, nova redução dos níveis de atividade, marcas de ansiedade, da sala para o escritório, do quarto para a cozinha, em roda-viva e lá fora nem uma alminha, só as almas penadas do costume, figuras curvadas, caixote às costas e comida acondicionada para ajudar a aliviar o peso do mundo que essa hora em todas as artérias ia mudo.

E veio depois a boa nova e o verbo foi…vacinar. Chega, não chega, dói não dói e as primeiras doses começaram a ser administradas, primeiro os mais velhos e doentes, os médicos e enfermeiros, alguns chicos-espertos e depois os bombeiros e, pé ante pé, foram-se cerrando fileiras contra o bicho, já chega de sofrimento, não sem mais um confinamento aqui e ali, fecha, abre, reabre, a Primavera a decorrer errática e vacinas com margens de erro suficientes para despertar de novo o medo, ainda não é desta, reforce-se a inoculação para travar de vez tanta preocupação e essa ausência de beijos e abraços, carícias e afetos que o ano segundo já vai a meio e não há meio de nos podermos entregar no primeiro abraço, nos primeiros braços abertos pondo fim a todo este este esmorecimento.

Carlos Tomé Sousa

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