Author Archives: Carlos Tomé Sousa

O ano do aborrecimento

No princípio era o verbo… brincar. O mundo entrava em confinamento e brincava-se com a ideia de estarmos todos fechados mas felizmente ligados. Ocuparam-se varandas que até então pouco mais eram que depósitos de plantas ressequidas e de móveis desmontados. Montaram-se cadeiras e espreguiçadeiras e de repente comia-se, lia-se na varanda e dizia-se olá a vizinhos que nem sabíamos que existiam. O país escondido atrás de cortinados e persianas revelava-se, dava a cara, adquiria hábitos quase nórdicos, banhos de sol despudorados à varanda. Redistribuíram-se espaços, reafectaram-se divisões e onde agora está um escritório guardavam-se antes caixas e latas de feijões, camas desmontadas e cadeirões. Amontoámo-nos nas nossas casas e forçaram-se convivências, dez, vinte, trinta dias seguidos sogras, mulheres, filhos, canário, periquito e maridos. Havemos de nos habituar, há-de passar, a experiência pode ser edificante, sairemos daqui mais gente, mais próximos.

A meio era o verbo…cantar. Cantava-se à janela, ópera, o Grândola e tudo, o vizinho que tinha jeito no saxofone, só faltava o vizinho da Dona Rosa e o megafone. Cantaram-se parabéns a idosas emocionadas, o sole mio que estou aqui sozinho só com o sol por companhia, uma miúda com uma voz bonita e uma guitarra de nome Maria. Saía-se à varanda para respirar, uma nova conjugação do verbo viver, paredes meias com uma casa cheia, à janela, eu, tu mais ela e, lá em baixo, rua acima, motas sem fim e gente de caixas às costas, um enxame de novos desgraçados, rápido e esmerado serviço em tempo de pandemia ao serviço dos mais acagaçados, que lá fora o perigo espreita na rua, nos supermercados, eu é que sei, melhor recorrer ao take-away.

Ainda a procissão ia no adro e o verbo era… estar ligado. Zoom, teams, facetime, chat, uma chatice, a mãe, o patrão a vizinha e o amigo a entrarem pela sala e cozinha adentro, a câmara no ângulo certo para mostrar o que se quer, para não revelar tudo, só os livros, o resto arrumado, apinhado num canto mudo nas novas salas agora abertas ao mundo. E neste mundo ligado o melhor é andar penteado, minimamente vestido da cintura para cima. Tem graça, mas no fundo é uma desgraça. E a decadência que é vaguear pelas divisões da casa dias a fio de pijama e roupão em estado de dormência.

Depois veio o sol e o verbo era… esplanar. O país que vive para dentro, que não levanta a persiana de repente descobriu o prazer de apanhar ar. Não foi mérito seu, nunca foi, nunca foi dado a esplanadas, e não fora o turismo e os estrangeiros e agora a pandemia não se sentaria tão amiúde numa mesa virada para a rua, que está fresquinho, melhor levar um casaquinho. Mas o hábito fez o monge, o povo esqueceu o fresquinho e o casquinho e cometeu o pecado capital da exposição pública, aos elementos, ao vento, aos olhares, um povo a medo despudorado. E as ruas ficaram de repente mais povoadas, por todo o lado a cada esquina esplanadas, amplas ou atravancadas nos passeios de qualquer rua, qualquer bairro.

Mas não há bela sem senão e eis que passado o verão o verbo voltou a ser… confinar. Arrumaram-se as mesas e as cadeiras como castigo e ficámos meses à espera que se abrisse um postigo para voltarmos a ter vida e bica e uma ilusão de normalidade, a bica bebida de fugida na esquina agora sem esplanada, em copo de plástico que é melhor do que nada. E passámos assim o Outono até ao Inverno com o Natal à porta e luzinhas para alegrar a rua que já quase não era rua, apenas um tapete de jogging generalizado, um corredor de supermercado, uma via sem sentido, destituída de funções e dos normais peões e sem bancos ocupados, sem os velhos, agora fechados, isolados, um ano que parecia ter vinte invernos.

E chegou o Natal e o verbo foi…reunir. Reuniram-se famílias, retirou-se a fava do bolo, que pode ter bicho. Encheram-se mesas de bolos e gente, menos gente certamente mas para o novo bicho foi o suficiente e o Natal tornou-se a Paixão, a natividade a gerar orfandade, milhares de doentes, defuntos e a Páscoa tão longe, meses de calvário lento até ao renascimento com a crença no que há-de vir que só pode ser melhor, que Janeiro e Fevereiro reservaram o pior, fechados, deprimidos nesse inverno cruel. Fecha a porta e janela, cumprimenta o vizinho à cautela, um dia e mais um e mais outro, testa-se a paciência e a resistência, redução dos níveis de atividade, marcas de ansiedade, da sala para o escritório, do quarto para a cozinha, em roda-viva e lá forma nem uma alminha, só as almas penadas do costume, figuras curvadas, caixote às costas e comida acondicionada para ajudar a aliviar o peso do mundo que esta hora em todas as artérias vai mudo.

E veio depois a boa nova e o verbo foi…vacinar. Chega, não chega, dói não dói e as primeiras doses começaram a ser administradas, primeiro os mais velhos e doentes, médicos e enfermeiros, alguns chicos-espertos e depois os bombeiros e pé ante pé foram-se cerrando fileiras contra o bicho, já chega de sofrimento, não sem se repetir aqui e ali mais um confinamento, fecha, abre, reabre, e a Primavera errática e vacinas com margens de erro suficientes para despertar de novo o medo, ainda não é desta, reforce-se a inoculação para travar de vez tanta preocupação e esta ausência de beijos e abraços, carícias e afetos que o ano ainda não vai a meio e não há meio de nos podermos entregar no primeiro braço que surgir aberto pondo fim a todo este este esmorecimento.

Carlos Tomé Sousa

Mãe negra

Madonna fez mais pela divulgação da música negra de expressão portuguesa e crioula do que muitos

Chegou de armas e bagagens a Lisboa e com as chuteiras do filho no saco e fez mais pela divulgação da música negra de expressão portuguesa e crioula do que muitos. E com isso devolveu a dignidade a quem merecia um pouco mais de reconhecimento por fazer desta Lisboa uma cidade multicultural. verdadeiramente global. Mas não ganhou medalhas, ganhou antes uma certa indiferença. A Lisboa branca não lhe perdoou. Em vez de frequentar os salões nobres da nação embrenhou-se em jam-sessions com fadistas, músicos e cantores negros, bailarinas e batucadeiras. E subiu ao palco numa série de concertos onde abriu os palcos a essa música tantas vezes esquecida. Madonna veio a Lisboa e não embarcou na feira de vaidades da capital, preferindo a feira das verdades, dos ritmos espontâneos e quentes e a Lisboa branca não lhe perdoou, votou-a a um certo ostracismo, invejou-lhe os lugares de estacionamento e não a acariciou por aí além. E Madonna couldn’t care less. Diz quem sabe e quem vê, e está bem visível para quem ouve e vê as suas mais recentes produções, que ela se divertiu à grande, trocando o Portugal empertigado preferindo os sons de África que estão por todo o lado.

Carlos Tomé Sousa

In praise of Robert Fripp

A dispute over royalties is opposing the David Bowie Estate and Robert Fripp one of the best, most influential and respected guitar players in modern music.

The first time I saw Robert Fripp live was in 1982 in Faro, the Algarve, where he played with his band King Crimson supporting Roxy Music, and this brings to mind a funny anecdote. “Uau, look at him jumping on stage, the great Robert Fripp!”. But the dancing man on stage was not Fripp but rather Adrian Bellew who, together with Tony Levin, ensured most of the moves and with Bill Brufford during the hypnotising “Waiting Man” where Adian and Bill engaged on a true duel in front of the vibraphone, one of the highlights of the show. As for Fripp he spent most of concert sitting on a bar stool discretely playing his guitar. “No, man Robert Fripp is the guy on a tuxedo sitting down!”. This episode tells a lot about both the importance but also about the discretion of one of the best and most respected guitar players in the world, the man who left his mark in a myriad of records from David Sylvian to David Bowie through to King Crimson, Talking Heads, Brian Eno, The Grid, Peter Gabriel… Tracks like “I Zimbra” from Talking Heads, “Heroes” by David Bowie, the whole “Gone to Earth” album by David Sylvian or “456” by The Grid would never be the same with the particular sound of Fripps’s guitar. The list of tracks where his guitar played a decisive role in shaping the sound and delivering a particular atmosphere is enormous and we could add a couple more like “No self-control”, “I Don’t Remember” and “Not One of Us” by Peter Gabriel, “Baby’s on fire” by Brian Eno or David Bowie’s “Fashion”, “It’s No Game”, “Scary Monsters (and Super Creeps)”, “Kingdom Come”, “Up the Hill Backwards” and “Teenage Wildlife”.

And it’s precisely the songs he recorded for Bowie’s albums “Heroes” and “Scary Monsters” that are now bringing Robert Fripp to the front pages of the music and general press following his claim to be taken as a featured artist and not just as mere session guitar player, a dispute that is opposing him to David Bowie’s estate and PPL ((Phonographic Performance Limited) that doesn’t recognise his status as feature performer and so therefore has been refusing to pay him the relevant royalties, claiming that when the tracks were recorded there was no such thing as featured player. But his work as featured player has been acknowledged by both Brian Eno and Tony Visconti who were deeply involved in the production of Bowie’s albums particularly Brian Eno during the so-called Berlin phase. Without Eno and Fripp’s mastery in creating soundscapes the song “Heroes” wouldn’t have been what it is and the same goes to most of the tracks on Scary Monsters where Fripp’s guitar was essential for the final outcome. The dispute involving Fripp and the Bowie estate and PPL is thus not just about money, it’s about acknowledging the important role of Robert Fripp as one of the most influential guitar players in modern music. When listening to his guitar on “Heroes” we realise he didn’t just lend the ink, he actually painted half the painting.

Carlos Tomé Sousa

Felipe Oliveira Baptista opens a new page at Kenzo.

Photo by Karim Sadli

The Portuguese-born and Paris-based designer and former creative director of Lacoste is as of today at the helm of Kenzo.

“This is the end of a page, not the end of the book”. These words date back to February 2014 when Felipe Oliveira Baptista decided to put his eponymous brand on hold in order to focus on other projects and after 10 years presenting his designs and assisted by the fashion platform Portugal Fashion. And what a book, may we add.  Shortly after there he was working for Lacoste as creative designer, a position he retained until the spring of 2018. As of today Felipe is at the creative Helm of the Japanese brand Kenzo part also of the LVMH empire whose speakers stated that one of the reasons behind this invitation lie in his relationship with different cultures. But considering the good results achieved at Lacoste during his tenure and the underperformance of Kenzo at LVMH when compared to other giants in this group, money may have played also a decisive role. Felipe origins were there in some of his designs when he appropriated some elements of his place of birth, the Azores, but looking at his body of work it breathes rather some restraint and contained elegance which is also synonym for Kenzo for many who prefer precisely that containment than the overt flowery patterns or the unbearable tiger.  Looking back at his work with his eponymous brand and the brands that inspired him of for which he worked for Felipe may thus become the right man to revive Kenzo.  

Carlos Tomé Sousa

The affectionate punch

And the working classes rejoicing at the wonders of Portugal. What a lovely country of crispy custards and warm nights where everything is so affordable and people speak our language. 
And Mireille feeling so happy for the Portuguese lady she met back then in France who made it in life, she moved back from cleaning toilets to cleaning the toilet of her own house she now rents to tourists, the sheets always impeccable, and her daughter a fine nurse in Cornwall 
And Nancy aghast at the sight of the hordes who now flock to the beaches that were there not for the many but for the few who could afford the luxuries and enjoy the vagaries of time among kings and royals, noblemen and spies. 
And the world rejoicing at royal estate margins, what a bargain, glazed tiles and derelict palaces waiting for the gentry’s helping hand and the economy and the country so nice and thankful for the moneys. 
And the people, the locals so happy celebrating at the sound of amusing tunes and sardines and street parties, oh it’s all so lovely, let’s move in, so affordable, so adorable.

Carlos Tomé Sousa