O mar da vergonha

O Mediterrâneo é um cemitério de águas aparentemente tranquilas onde diariamente morrem os aflitos deste mundo. Sem meios, sem medo do medo, aventuram-se mar adentro, por esse mar morno, mais vale moribundo do que morto de medo, de fome na margem de partida. A meio do mar, uma alma caridosa há-de contrariar a sua sina, numa costa a norte alguém abrirá os braços. E enquanto o milagre não acontece, vagueiam no meio do mar, olhando para os céus, apelando aos deuses na esperança de que alguém se faça ao mar e venha em seu auxílio.

É neste cenário, num mar de corpos que se acumulam em frágeis embarcações, quase sem vida, que a Sea Eye opera, contrariando a indiferença generalizada, salvando quem pode. No início de Fevereiro, um dos barcos operados por esta instituição alemã foi baptizado com o nome de Alan Kurdi, em homenagem ao menino que deu à costa sem vida numa praia da Turquia e cuja foto correu e impressionou mundo. A cerimónia contou com a presença do pai do menino e que nessa terrível travessia perdeu toda a sua família. Mas a foto do menino e a reportagem deste acto simbólico já não vendem. Foram engolidas na voragem mediática por outras questões. Passado o choque inicial que motivou tantos cliques instantâneos, o mundo voltou à sua rotina. E passados cinco anos desde esta tragédia, o barco que leva agora o nome desse menino vagueia por estes dias pelo Mediterrâneo em busca de um porto que acolha 64 pessoas, que correm o risco de perecer no mar perante a indiferença generalizada. Neste mar imenso o Alan Kurdi navega desesperado mas determinado na sua honrosa missão. Em terra de cegos este navio é rei. E a sua triste sina, navegando sem rumo, sem ter quem abrace o destino de um punhado de pessoas, sem um pingo de solidariedade, deveria encher-nos de vergonha.

Carlos Tomé Sousa

Lisboa, terra de ninguém

Primeiro, e não necessariamente por esta ordem, vieram os galegos e depois os transmontanos e minhotos e carvoarias e mercearias e os alentejanos e algarvios, fábricas de cortiça e siderurgias, ribatejanos e beirões, docas, e já dantes aqui havia navios e porões cheios de gente que aqui chegada partiu para as índias e para as américas e voltou sempre das especiarias e do bacalhau para as mulheres quase viúvas em casas estreitas num pequeno bairro, num qualquer subúrbio, gente, muita gente aqui chegando de camioneta, uma mão atrás e outra à frente e um farol ao fundo do rio a guiar o caminho, sempre em frente e gente que se formou e aqui se instalou, políticos e administrativos, gente que se fixou e raramente abalou só nas férias e nos finados quando a terra requer presença, salvo os filhos que já não vão, foram aqui criados, a terra cada vez mais uma recordação, só dos pais que daí são, das serras e dos planaltos, das planícies e dos socalcos, de onde vieram as comidas e vêm cada vez menos saberes, que a cidade quer-se moderna, sempre em frente, apagando o rasto dos que primeiro vieram, travando percursos de vida em troca de novas gentes que reclamam para si a cidade, alheias a quem perde a cidade que um dia foi sua, que reclamaram para si desde tenra idade e que agora, cada vez mais movediça, é de quem lá vem, terra de todos sem ser de ninguém.

Carlos Tomé Sousa

Há piropos e piropos

Grupo de rapazes de Cádiz aproveita o Carnaval para cantar sobre piropos e dignidade da mulher.

É bom que compreendas que quando um murmúrio lhe é atirado durante a noite tremem-lhe as pernas. O medo invade-a e desata a correr para casa e a única coisa que pensa é chegar a casa para não ser mais uma na lista de nomes de mulheres que não regressam.” Esta é a frase mais contundente do pasodoble cujo vídeo se tornou viral, cantado pelos Niños Sin Nombre no concurso de coplas de Carnaval de Cádiz. Composto por Antonio Pérez Fuente Piru e Sergio Guillén El Tomate o grupo chama a atenção para a prática de lançar piropos que são muitas vezes ofensivos para as mulheres. “Escucha un momento, machito de turno, el mundo ha cambiado y te toca callar”, dizem, e a mensagem não podia ser mais incisiva numa Andaluzia (e em grande parte do sul da Europa) onde impera uma forte cultura machista. Colocar o dedo em algumas feridas foi uma constante na actuação destes rapazes de Cádiz e em cuja actuação não passou também despercebida a tragédia dos meninos que morrem a tentar atravessar o Mediterrâneo. Mas o tema mais forte é este “Escucha un momento”, cujo vídeo aqui reproduzimos, e que neste dia Internacional da Mulher dedicamos às mulheres de todo o mundo.

Carlos Tomé Sousa

The firestarter

The Prodigy became one of the most important names of the nineties mixing punk with electronica and big beat. On the day of Keith Flint’s passing we evoke the work and stamina of the band’s frontman.

It’s 1996 and the second day of Super Bock Super Rock, an open air festival hosting its 2nd edition in Lisbon and featuring David Bowie on the third and last day. After a first day featuring Portuguese bands the second proved to be the most fruitful given the chance we had to see acts that would become major names in modern music, from the Divine Comedy to Fluke, from Massive Attack to The Prodigy. After the easy listening charm of The Divine Comedy, the groovy sounds of Fluke and the mellow tunes of Massive Attack the Prodigy ignited the audience with their powerful sound and the strong presence of Keith Flint. “Firestarter“ was the hit of the moment and all of a sudden the whole audience was pogo dancing in a sort of wild exorcism assisted by a 25-year young man with devilish hair and grins jumping like mad in a relentless performance. We hadn’t seen anything like this for a long time since the days of punk. It was as if punk was back under a new guise assisted by electronic beats and power drums. It wasn’t the first time Punk and derivatives had taken to the clubs with their hard beats. Names like SPK, Nitzer Ebb of DAF had done it to perfection before them. But The Prodigy were making it now in the nineties, the craziest decade as far as music is concerned and when rockers engaged in dance moves thanks to bands like Underworld, Chemical Brothers, Leftfield, Renegade Soundwave and The Prodigy. After a decade of new punk and synth, madchester and rave, the early nineties were much about rock either under grunge or combined with a molotov cocktail of beats and riffs which The Prodigy did master. Most of Prodigy’s material was signed by Liam Howlett, but much of the success of the band was due to Keith Flint with his provocative looks, spiked hair and piercings, who had joined the band as a dancer but who would become the frontman and distinguishing mark of the band, the very same man who brought back some rebellion to the music scene. Keith Flint died today at the age of 49 and the music scene is now paying tribute and acknowledging his role as one of the most influential names in the 1990’s.

Carlos Tomé Sousa   

Lisboa ano 2019

A cozinheira, o francês, o surfista, o casal africano, a fadista, o americano e um casal e o seu gato.

Numa mesa de uma colectividade uma moça de cabelos pretos sentada a fazer um puzzle de mil peças e um francês que se senta ao seu lado. Analisam cuidadosamente cada peça que vão colocando no lugar certo por entre pequenos goles de vinho tinto. Na mesa ao lado um casal africano e um amigo bebem cerveja de garrafa por entre acenares de cabeça simpáticos a quem entra. Atrás deles um casal na casa dos trinta joga snooker sob o olhar do gato que insistem trazer todas as vezes que aqui vêm numa mochila verde alface. No ar o som de um concurso de TV e um homem magro que adivinha quase todas as respostas. Ao canto, ao lado da biblioteca e onde se acumulam livros e jogos de mesa, um homem de meia idade e uma sopa de legumes servida pela mulher com ar mais jovem e de modos meigos, mesmo ao lado de um homem e uma mulher numa conversa sobre filmes quase oscarizados, cantores esquisitos e personagens de um humorista famoso. Na mesa à entrada, um jovem com ar de surfista e uma imperial e um queijinho de ovelha, na mesma mesma mesa onde se senta às vezes um senhor americano de idade avançada com ar de actor de cinema, casado com uma brasileira, amigos da inglesa que conheceram através de uma cozinheira que costuma parar no bar do francês onde a dona da leitaria gosta de tomar a bica com uma fadista que é mulher do rapaz que está sempre no bar onde pára esta gente toda e outros tantos que entram e saem num espaço onde cabe toda esta a gente.

Carlos Tomé Sousa