Author Archives: Carlos Tomé Sousa

Lisboa, terra de ninguém

Primeiro, e não necessariamente por esta ordem, vieram os galegos e depois os transmontanos e minhotos e carvoarias e mercearias e os alentejanos e algarvios, fábricas de cortiça e siderurgias, ribatejanos e beirões, docas, e já dantes aqui havia navios e porões cheios de gente que aqui chegada partiu para as índias e para as américas e voltou sempre das especiarias e do bacalhau para as mulheres quase viúvas em casas estreitas num pequeno bairro, num qualquer subúrbio, gente, muita gente aqui chegando de camioneta, uma mão atrás e outra à frente e um farol ao fundo do rio a guiar o caminho, sempre em frente e gente que se formou e aqui se instalou, políticos e administrativos, gente que se fixou e raramente abalou só nas férias e nos finados quando a terra requer presença, salvo os filhos que já não vão, foram aqui criados, a terra cada vez mais uma recordação, só dos pais que daí são, das serras e dos planaltos, das planícies e dos socalcos, de onde vieram as comidas e vêm cada vez menos saberes, que a cidade quer-se moderna, sempre em frente, apagando o rasto dos que primeiro vieram, travando percursos de vida em troca de novas gentes que reclamam para si a cidade, alheias a quem perde a cidade que um dia foi sua, que reclamaram para si desde tenra idade e que agora, cada vez mais movediça, é de quem lá vem, terra de todos sem ser de ninguém.

Carlos Tomé Sousa

Há piropos e piropos

Grupo de rapazes de Cádiz aproveita o Carnaval para cantar sobre piropos e dignidade da mulher.

É bom que compreendas que quando um murmúrio lhe é atirado durante a noite tremem-lhe as pernas. O medo invade-a e desata a correr para casa e a única coisa que pensa é chegar a casa para não ser mais uma na lista de nomes de mulheres que não regressam.” Esta é a frase mais contundente do pasodoble cujo vídeo se tornou viral, cantado pelos Niños Sin Nombre no concurso de coplas de Carnaval de Cádiz. Composto por Antonio Pérez Fuente Piru e Sergio Guillén El Tomate o grupo chama a atenção para a prática de lançar piropos que são muitas vezes ofensivos para as mulheres. “Escucha un momento, machito de turno, el mundo ha cambiado y te toca callar”, dizem, e a mensagem não podia ser mais incisiva numa Andaluzia (e em grande parte do sul da Europa) onde impera uma forte cultura machista. Colocar o dedo em algumas feridas foi uma constante na actuação destes rapazes de Cádiz e em cuja actuação não passou também despercebida a tragédia dos meninos que morrem a tentar atravessar o Mediterrâneo. Mas o tema mais forte é este “Escucha un momento”, cujo vídeo aqui reproduzimos, e que neste dia Internacional da Mulher dedicamos às mulheres de todo o mundo.

Carlos Tomé Sousa

The firestarter

The Prodigy became one of the most important names of the nineties mixing punk with electronica and big beat. On the day of Keith Flint’s passing we evoke the work and stamina of the band’s frontman.

It’s 1996 and the second day of Super Bock Super Rock, an open air festival hosting its 2nd edition in Lisbon and featuring David Bowie on the third and last day. After a first day featuring Portuguese bands the second proved to be the most fruitful given the chance we had to see acts that would become major names in modern music, from the Divine Comedy to Fluke, from Massive Attack to The Prodigy. After the easy listening charm of The Divine Comedy, the groovy sounds of Fluke and the mellow tunes of Massive Attack the Prodigy ignited the audience with their powerful sound and the strong presence of Keith Flint. “Firestarter“ was the hit of the moment and all of a sudden the whole audience was pogo dancing in a sort of wild exorcism assisted by a 25-year young man with devilish hair and grins jumping like mad in a relentless performance. We hadn’t seen anything like this for a long time since the days of punk. It was as if punk was back under a new guise assisted by electronic beats and power drums. It wasn’t the first time Punk and derivatives had taken to the clubs with their hard beats. Names like SPK, Nitzer Ebb of DAF had done it to perfection before them. But The Prodigy were making it now in the nineties, the craziest decade as far as music is concerned and when rockers engaged in dance moves thanks to bands like Underworld, Chemical Brothers, Leftfield, Renegade Soundwave and The Prodigy. After a decade of new punk and synth, madchester and rave, the early nineties were much about rock either under grunge or combined with a molotov cocktail of beats and riffs which The Prodigy did master. Most of Prodigy’s material was signed by Liam Howlett, but much of the success of the band was due to Keith Flint with his provocative looks, spiked hair and piercings, who had joined the band as a dancer but who would become the frontman and distinguishing mark of the band, the very same man who brought back some rebellion to the music scene. Keith Flint died today at the age of 49 and the music scene is now paying tribute and acknowledging his role as one of the most influential names in the 1990’s.

Carlos Tomé Sousa   

Lisboa ano 2019

A cozinheira, o francês, o surfista, o casal africano, a fadista, o americano e um casal e o seu gato.

Numa mesa de uma colectividade uma moça de cabelos pretos sentada a fazer um puzzle de mil peças e um francês que se senta ao seu lado. Analisam cuidadosamente cada peça que vão colocando no lugar certo por entre pequenos goles de vinho tinto. Na mesa ao lado um casal africano e um amigo bebem cerveja de garrafa por entre acenares de cabeça simpáticos a quem entra. Atrás deles um casal na casa dos trinta joga snooker sob o olhar do gato que insistem trazer todas as vezes que aqui vêm numa mochila verde alface. No ar o som de um concurso de TV e um homem magro que adivinha quase todas as respostas. Ao canto, ao lado da biblioteca e onde se acumulam livros e jogos de mesa, um homem de meia idade e uma sopa de legumes servida pela mulher com ar mais jovem e de modos meigos, mesmo ao lado de um homem e uma mulher numa conversa sobre filmes quase oscarizados, cantores esquisitos e personagens de um humorista famoso. Na mesa à entrada, um jovem com ar de surfista e uma imperial e um queijinho de ovelha, na mesma mesma mesa onde se senta às vezes um senhor americano de idade avançada com ar de actor de cinema, casado com uma brasileira, amigos da inglesa que conheceram através de uma cozinheira que costuma parar no bar do francês onde a dona da leitaria gosta de tomar a bica com uma fadista que é mulher do rapaz que está sempre no bar onde pára esta gente toda e outros tantos que entram e saem num espaço onde cabe toda esta a gente.

Carlos Tomé Sousa

Karl Lagerfeld e Eça de Queirós


Em 2010 Karl Lagerfeld foi convidado para editor por um dia da revista francesa Madame Figaro, lançada em plena Semana da Moda de Paris em Setembro. Nada de estranhar tendo em conta o peso de Karl no mundo da moda. Por entre escolhas e grafismos mais ou menos óbvios o mais curioso nessa edição surgia umas páginas mais à frente. Anos antes de Portugal se tornar o paraíso de reformados, estilistas e futebolistas franceses já Karl Lagerfeld andava de olho há muito em Portugal mais precisamente na obra de Eça de Queiróz, um dos seus escritores favoritos. “Li o seu livro mais famoso, “Os Maias”, uma saga familiar proustiana sobre a vida em Portugal e em Lisboa no final do sec XIX. “E descobri depois por acaso outros livros dele que estou agora a ler “O Primo Basílio” e “202 Champs Elysées” que decorre em Paris onde morreu, e “O Crime do Padre Amaro”. É genial. A reeditar”, disse então.
E ao que parece este criador consagrado, dono de uma enorme biblioteca, que gostava também de editar estaria mesmo interessado em editar toda a obra de Eça de Queiroz em França. As referências a Portugal nessa revista estendem-se ainda à música, já recomendava então na secção de espectáculos “la trés grande pianiste portugaise en son domaine privé (le dernier Concerto pour piano de Mozart)…. cela ne se refuse pas”. Karl Lagerfeld morreu hoje e não consta que alguma vez tivesse considerado a possibilidade de viver em Portugal, mas fica a curiosidade neste post publicado pela primeira vez em 2010.
Carlos Tomé Sousa